A interação entre as crianças

A interação entre as crianças promovendo a formação de cidadãos éticos e conscientes

“A interação da criança/criança de faixas etárias diferentes e entre crianças/educador, através de um espaço organizado e de uma proposta de trabalho voltados para este fim, propicia a troca de experiências e informações entre membros mais experientes da cultura e outros menos experientes.”
Rosana A. Dutoi
Consultora do Ministério da Educação
 

 A interação entre as crianças é considerada como fundamental na construção de aprendizagens significativas na Escola.  Por meio da interação trocam conhecimentos, são desafiadas nas suas ações, aprendem sobre as relações, constróem valores de cooperação, solidariedade, respeito ao outro...

  A Escola Bacuri, desde de seu primeiro ano de trabalho, incorpora em suas propostas de atividades com as crianças, situações de interação entre os diferentes grupos,  promovendo com esta ação uma prática consistente de valorização da aprendizagem por interação. Escolhemos diferentes momentos de nossa rotina com as crianças e promovemos situações coletivas nas quais são propostas atividades em que elas tenham que trocar seus conhecimentos, buscar a ajuda uma das outras, adequar suas falas  e atitudes à competência de seus colegas, esforçar-se em serem compreendidas em suas questões.

 As brincadeiras de faz de conta são atividades privilegiadas, pois nessas tanto os pequenos ensinam os mais velhos, como os mais velhos ensinam os mais novos. Um exemplo: a tendência da criança pequena é permanecer pouco tempo entretida com um mesmo material pois faltam-lhe recursos e experiências para serem criativas a ponto de encadear diferentes ações a partir de um mesmo enredo. Com a parceria de uma criança mais velha, o pequenino poderá acionar uma ação que já sabe fazer, o imitar, e por meio desta consegue sequenciar diferentes ações a partir de um enredo que já encontra-se estruturado pelos mais velhos.

 Enquanto isso, os mais velhos também estão sendo desafiados em compreender que precisam ensinar os pequenos sobre o que devem fazer, sobre os papéis que devem representar, sobre o tempo que vai durar cada uma das ações e, para isso, há um esforço cognitivo que envolve colocar-se no ponto de vista do outro e procurar pensar a partir do referencial dele. A pergunta mais frequente que eles se fazem é: “Como eu vou ensinar este bebê a brincar de ser meu filho?”

 Além disso, ter a oportunidade de vivenciar o papel do mais experiente, que tem coisas a ensinar e não só a aprender, também favorece a auto estima da criança e a formação de seu auto-conceito, que transpondo para a realidade da criança significa dizer: “Eu confio em mim e sei que os adultos que me acompanham também confiam que eu tenho coisas legais para ensinar e contar!”.

 Outra situação enriquecida pela interação no ambiente escolar são os momentos de conversa e estudos sobre algum conhecimento específico de nossa sociedade. Por exemplo, um estudo sobre os bichos realizado na turma da manhã no ano de 2001. As crianças menores foram investigar a vida dos animais da escola, uma aprendizagem favorecida pela situação concreta de contato com estes bichos. Os maiores foram estudar bichos que não estão na escola, como por exemplo o carneiro, o urso... Organizamos situações de troca de conhecimentos entre os dois grupos, os pequenos mostravam fotos dos bichos, mostravam a ração deles, imitavam os sons que eles emitem, enquanto os grandes esforçavam-se em adaptar sua fala a um discurso que pudesse ser compreendido pelos menores. Esta adaptação implica em uma apropriação de conhecimentos, pois tal como o professor quando vai ensinar algo a seus alunos, esforça-se em estudar e encontrar a melhor estratégia para promover a aprendizagem que pretende, a criança precisa fazer o mesmo exercício: ela vai buscar todos os seus conhecimentos sobre o assunto, sobre as crianças que vão escutar o que irá contar, que são menores, e precisará organizar todos esses conhecimentos para produzir um novo que é: “comunicar aquilo que sei respeitando o meu ouvinte”. Este é um aprendizado que, com certeza, a criança levará vida a fora, para as mais diversas situações que lhe forem apresentadas na sua vida de estudante e de profissional.

 Por outro lado, esta mesma situação também oferece uma riqueza de trabalho com a linguagem. Os pequeninos que ainda não conseguem expressar sua fala de forma coerente e clara, estão recebendo modelos muito próximos aos que podem conseguir fazer, para imitarem. Além disso, a criança pequena sente-se confortável na parceria com uma criança maior pois esta considera-a como uma interlocutora, que apesar de não saber muitas coisas, pode ser uma grande amiga nas brincadeiras e parcerias na escola. 

 Outra troca muito interessante que pudemos observar diz respeito a identidade de estudante, ou seja, de criança que frequenta a escola, que é um ambiente diferente da casa. As crianças maiores possuem um rico repertório de experiência de vida escolar, já sabem o que devem fazer na escola, onde guardar os materiais, a sequência da rotina, onde guardar os seus pertences, como tomar conta deles... Já as crianças mais novas, estão iniciando uma aprendizagem em relação a todas essas ações e conhecimentos. Quando os pequenos podem observar os maiores e conseguem identificar que estas ações fazem parte de seu dia na escola e são realizadas de forma prazerosa e responsável, conseguem encontrar repertório de imitação e de valores a serem construídos.

 Nos momentos que organizamos a entrada das crianças juntas, a tendência é os pequeninos, no momento de guardarem os brinquedos, não pararem de brincar e explorar os materiais, já os mais velhos iniciam a arrumação incentivando e valorizando a colaboração que estão dando à organização de sua sala de aula. Ao poder observar esta ação de seus colegas, que também estará sendo valorizada pela professora, os pequenos poderão encontrar um sentido e significado para guardar os brinquedos que usaram, procurando então realizá-la por meio da imitação. Este exemplo, diz muito da forma como as crianças aprendem, por meio da imitação e da atribuição de sentido e valor que podem dar ao saber o que esta sendo ensinado. 

 Para finalizar, gostaria de ressaltar a importância que as situações de interação têm na formação de crianças que constróem uma postura ética no convívio em sociedade, portanto na relação com o outro. Vivemos em um mundo no qual os valores estão se perdendo, no qual já não sabemos quais são as leis que regem as ações e reações das pessoas, qual a lei que impera nas relações de amizade, de amor, de família. Cada vez mais desaprendemos a conviver em grupo e nos voltamos para a parceria com as máquinas que buscam substituir o contato caloroso que somente a parceria entre iguais possibilita. Quando favorecemos situações de interação no ambiente escolar estamos favorecendo a aprendizagem das crianças em conviver com outros iguais gostando desta relação, respeitando e valorizando as diferenças, resolvendo e respeitando os conflitos gerados por esta interação, aprendendo a contar com a parceria do outro para descobrir novos saberes e para construir competências indispensáveis para o convívio em equipe, tal como o cooperar, esperar sua vez de falar, ouvir o outro, colocar-se no ponto de vista do outro e agir com ele a partir deste conhecimento. A ética diz respeito a construção dessas posturas de vida, e por ser um saber que esta extremamente vinculado às relações, ao convívio em grupo, é principalmente nessas situações que as crianças aprendem a serem éticas consigo próprias e com os outros.

 Um planejamento escolar que considera esse saber ético como fundamental para a formação de uma criança, inclui em sua rotina de trabalho, momentos de convívio com as diferenças, planejados, orientados e assistidos pelos professores, pois somente desta forma poderão ser considerados conteúdos de ensino. A Escola Bacuri se preocupa muito com a formação de seus alunos e busca situações de parcerias entre crianças de diferentes faixas etárias para promover este aprendizado. Já temos tempo de vida escolar suficiente para fazermos esta reflexão que vocês estão lendo e, portanto, já pudemos acumular uma diversidade de experiências para estarmos promovendo atividades de interação com diferentes faixas etárias em nossa rotina!

 Sabemos, entretanto, que o conhecimento nunca é dado como pronto e por isso acreditamos que estamos sempre aprendendo novos saberes a partir de cada uma das situações que observamos e refletimos. Entendemos que esta deve ser a postura de uma Escola Reflexiva que se propõe a aprender com a sua própria prática.


Beatriz Ferraz
Coordenadora de Projetos da Escola de Educadores.

 
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